março 31, 2009 at 1:14 am Deixe um comentário

O MAR NÃO ESTÁ (MAIS) PRA

PEIXE

A pesca é, atualmente, uma das atividades humanas que causa maior dano ambiental. Para se ter uma idéia, dados da WWF e ONU mostram que a produção pesqueira mundial que era de 30 milhões de toneladas em 1950, passou para 50 milhões em 1980 e ultrapassou os 100 milhões em 2004, ou seja, tal atividade está afetando seriamente as populações de algumas espécies e ocasionando grandes alterações no ecossistema marinho. Um exemplo é o atum-azul (Thunnus spp.), um peixe magnífico de 230 quilos e 2,5 metros, que teve sua população no Atlântico Norte reduzia a 6 ou 12% da original, estando a do Pacífico seguindo no mesmo rumo. A principal causa do declínio é a sua utilização no preparo de um sushi luxuoso muito apreciado em países asiáticos, e o preço de mercado dessa espécie pode ultrapassar os 10 mil dólares no Japão.

Uma das principais razões desse tamanho impacto da pesca foi a implementação, nas últimas décadas, de tecnologia avançada na área de sonares e rastreamento via satélite, que transformaram a atividade em um empreendimento industrial de larga escala. Com essa transformação, os pescadores começaram a literalmente “varrer” os oceanos com imensas redes e longas linhas de espinhel, capturando todo tipo de ser vivo em seu caminho, podendo ser estes da espécie que buscam ou não. Os que não possuem valor econômico para os pescadores – em sua maioria, peixes jovens, moluscos, estrelas-do-mar, aves, e até focas e golfinhos – são descartados e jogados mortos de volta à água. E tudo isso ocorre a bordo de grandes e equipados navios que permitem limpar e processar toneladas de peixe e outros pescados em uma única viagem, alguns desses contendo luxos como banheira de hidromassagem e televisão via satélite.

Por que isso acontece sem que ninguém faça algo a respeito? Porque, em primeiro lugar, é extremamente difícil controlar as pescarias em mar aberto, nas águas internacionais. Não existe um órgão mundial responsável por regulamentar e fiscalizar a prática, é como se fosse “terra” de ninguém para os pescadores. E, como argumenta o jornalista David Quammen em seu livro Monstro de Deus, recursos sem “dono” terminam sofrendo com a exploração excessiva. Em segundo lugar, há quantias enormes de dinheiro e muita influência política – principalmente de países do Oriente- investidas no negócio da pesca atualmente, existindo, às vezes, a participação de algumas máfias. E, em terceiro lugar, é porque tal atividade é feita longe da vista do grande público, debaixo da água. Se o mesmo fosse realizado em terra, ficaríamos chocados. Por exemplo, é como se fossemos usar um helicóptero com grandes redes para pegar vacas em uma fazenda. No final, não teríamos pegado somente vacas, mas também grama, árvores, ovelhas, cavalos, celeiros, a casa, o cachorro, a esposa e os filhos do fazendeiro, e o pior, tudo isso estaria morto. Esse é o drama vivenciado no mundo atual por muitas espécies de peixes e invertebrados que apresentam grande valor econômico para a pesca industrial, e estão entre elas algumas das mais conhecidas quando a questão é culinária, cultura e história.

O bacalhau (Gadus morhua), uma das espécies de maior valor econômico e das mais famosas na gastronomia e em muitas culturas do Ocidente, está hoje em uma situação tanto complexa quanto alarmante. A única população saudável conhecida no mundo hoje é a existente no mar da Noruega, que pode não ir tão bem num futuro próximo. Além da exploração excessiva, esses peixes têm de enfrentar a poluição e o aquecimento global, dois fatores que estão desestruturando toda a cadeia alimentar no Ártico.

Os sistemas de circulação de correntes marinhas e de ar do nosso planeta fazem com que os poluentes lançados por nós no oceano e na atmosfera, tenham como destino os pólos. Estes elementos acabam por se precipitar nessas regiões, e através de um processo denominado bioacumulação, chegam aos tecidos das espécies que habitam esses ambientes.

Produtos químicos como o DDT e os PCB’s incorporam-se ao tecido de invertebrados marinhos que formam o plâncton, e que servem de alimento para peixes – como o bacalhau – que são devorados por aves e mamíferos aquáticos. Estes, por terem de alimentar-se com grandes quantidades de peixes, terminam concentrando mais e mais toxinas nos tecidos de seus corpos, que ocasionam deficiência reprodutiva, câncer e más formações congênitas. As pesquisas do Instituto Polar Norueguês demonstram que as orcas (Orcinus orca) e os ursos-polares (Ursus maritimus) são as espécies mais contaminadas de todo o Ártico, e o mais agravante, particularmente no caso destes mamíferos, é que tais toxinas podem ser passadas para seus filhotes quando estes ainda encontram-se no ventre da mãe, e quando nascem, através do leite.

Outro problema para o bacalhau é que os invertebrados integrantes de sua dieta dependem, para sua reprodução e alimentação, do ciclo sazonal de gelo e degelo da calota polar ártica, que está diminuindo de tamanho e sendo alterada devido ao aquecimento global. Diante dessa situação, a Convenção para o Comércio de Espécies Ameaçadas da ONU – a CITES – está sob pressão para incluir o bacalhau, assim como o atum-azul, em seu Apêndice I, significando a proibição total de sua captura, exploração e comercialização.

Fonte: National Geographic

Adaptação de Igor Morais, estudante de bacharelado em Ciências Biológicas – UFPE e ativista do ADA.

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