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Alerta Global! (A quem interessa alienar-se?)

Alerta Global! A quem interessa alienar-se?

Marcelo Pelizzoli

Uma avestruz, quando tem medo, mete a cabeça sob a terra, e dá margem a ser devorada por predadores. O mundo ocidental, pós-Revolução Científica e Industrial, e o malfadado capitalismo (do eurocentrismo branco ao american way of life), tendo “vencido” o mundo primitivo, chamado de “selvagem” (como os “índios”), conquistando a Lua e parte da matéria e da energia, vê-se em processo autofágico (auto-devoramento). Tal processo emerge a cada dia de uma série causal complexa de degradações constantes, que se assomam num continuum que reverbera por muitos anos depois de ocorrida uma ação. A exemplo de um lixão, que mais tarde compromete toda uma região de lençóis freáticos, ou a exemplo de um consumo inconsciente com alimentação artificial e quimificada, que em alguns anos gera um câncer ou um a série de doenças degenerativas (há uma “epidemia” delas hoje).

Demoraram-se longos anos para que o establishment, a oficialidade do poder (Governos, G8, por exemplo) aceitasse, a duras penas, a verdade inconveniente de que estamos num caos crescente social e ambiental (uso a palavra socioambiental para indicar que é um só processo!). É claro que, daí para a prática, “são outros quinhentos”. O alerta começou a ser dado no início do século XX, tendo como marco especial nos anos 50 a ameaça atômica real, e depois os colapsos ecológicos espelhados nas crises energéticas, de recursos, lutas por territórios, água, migrações de populações inteiras por questões de carência de recursos, problemas graves de saneamento, mortalidade e insanidade, e qualidade de vida comprometida devido a condições de poluição em geral, alimentação precária e artificial, uso de inseticidas, agrotóxicos, e uma gama de outros elementos agregados que nos matam antes da hora. Tudo isso a demandar quantidades crescentes de energia e materiais (natureza). Estamos nos encaminhando para o auge desta crise. O estopim disso se chama Aquecimento Global. Entender isso apenas como aumento de temperatura do planeta é um reducionismo inaceitável, mais ainda por parte de pessoas esclarecidas. E entender Ecologia ou ambientalismo apenas como conservação natural, é outro reducionismo perverso.

A quem interessa fechar os olhos e desmentir o Aquecimento Global ? A quem interessa condenar ecologistas e taxar militantes como radicais (isso deveria ser elogio, radical: ir à raiz)? Tem sido uma das formas clássicas de quem se sente atingido, atacar no “modo (des)moralizante”, bastante sutil mas hipócrita (como quando Color de Mello disse que Lula tinha um aparelho de som caro e que ele não tinha). Neste sentido, já vi textos acusando Al Gore, autor do filme talvez o mais importante deste século (Verdade Inconveniente) de gastar 5 mil dólares na conta de luz por mês ! Mas a mentira tem pernas curtas.

Vejo somente algumas alternativas para responder à negação da amplitude da crise e, consequentemente, da defesa do status quo: Hipótese 1: alguém quer ir contra 800 cientistas renomados contatados pela painel da ONU sobre Mudanças Climáticas, e contra o que estamos sentindo na pele a cada dia (degradação socioecológica), e assim ganhar holofotes numa mídia sensacionalista. Alguns conseguem isso. Mas há mais. Hipótese 2: alguém com interesses escusos, servindo àqueles que vêem seus negócios afetados pela diminuição do consumo e pela consciência cidadã e planetária. Esse é um caso muito comum. Nos EUA, a indústria do Petróleo e as que demandam energias imensas, e de alto impacto em gases de efeito estufa, são exemplos. Muitas vezes, ONGs, cientistas, sindicatos, pastores, mídia, são comprados constantemente para mentir em nome de alguns Senhores.

Consideremos, por um minuto, que um indivíduo que nega o aquecimento global tenha razão? Pergunta-se: a quem serve o resultado desta “verdade conveniente” ? O que ele nega junto? Nós deveríamos parar de economizar cada vez mais energia elétrica ? Deveríamos, por causa da verdade dessa falação, andar sempre de carro e produzir mais poluição e problemas respiratórios e engarrafamento ? Deveríamos priorizar menos o transporte público ? Deveríamos parar de consumir cada vez mais, e continuar a poluir de todos os tipos nossos ambientes ? Deveríamos continuar a destruir os nossos ecossistemas? Deveríamos continuar com valores egocentrados num individualismo grosseiro que faz perder a noção de interdependência de todos os seres e do destino comum dos que vivem num planeta limitado ? Deveríamos abandonar o trabalho exemplar do Painel da ONU e de Al Gore e toda a consciência que estão trazendo aos povos ? Vejam o absurdo a que chega uma tal negação.

Ecologia. Alerta Global. Não se trata de uma brincadeira. Não podemos brincar com o futuro de nossos filhos, e o presente que já nos pesa. O vertiginoso aumento de temperatura nos últimos anos com a comprovação consecutiva e comparativa exaustiva da alteração do ciclo uso do carbono desde a sociedade industrial é gritante. É uma questão da mais alta responsabilidade e da coletividade. Não obstante, não podemos entender isso como simples aumento de temperatura por caprichos de eras climáticas de nosso planeta. Esqueçamos um pouco o aquecimento em si, olhemos para baixo e para os lados e um pouco adiante! Somente posso entender mais humanamente a negação dos aspectos graves da crise ecológica e social em que vivemos se ligo este fato com o medo e a dor das pessoas quanto a aceitar certas realidades. Isso seria mais humano e humilde. Dói profundamente saber que estamos num caminho com estilo de vida profundamente anti-social e anti-ecológico; os fatos arrasam. Ou seja, admitir que o nosso capitalismo (e nós todos o somos em maior ou menor grau), levou nossa loucura egóica a tal intensidade que gera retroações e quedas as quais queremos evitar. E então, se ouve as vezes dizer: “está tudo bem”, “está tudo bem”, são apenas detalhes e a tecnologia e a política liberal, o crescimento econômico “vão resolver isso”! Ninguém mais, de bom senso e sensibilidade, tem coragem de negar o quão fundo chegamos, gerando violências de todo tipo, perda de valores, degradação de culturas, exclusão social, relações de poder hipócritas e exploratórias, uma selvageria manifesta em especial no Hemisfério Sul do Planeta, mas também no Norte. Por que defender um modelo assim? American way of life. Superman. Até quando ? Por que negar nossa situação e vulnerabilidade? Por que querer ser Deus? Onde queremos levar nosso ego para que ele escape da minha responsabilidade cada vez maior e dos meus limites?

A injustiça clama aos céus, diz o texto sagrado. Em todo caso, não precisamos desanimar diante da situação. Ela nos clama pois não queremos uma vida arruinada, mas boa, evitando o sofrimento, buscando a felicidade, mesmo nas coisas simples da vida, na partilha, na socialização, na cultura. Alegria, amizade, culturas locais, cidadania, sim. Mas não podemos mais viver num mundo de “faz de conta”. Não estamos mais na Era da Abundância e no infantil “Alice no país das maravilhas”, e, certas “verdades” que herdamos de nossos pais, mesmo professores (com viseiras), ou até de coronéis, hoje coronéis empresários, estão quase todas obsoletas, e por isso se tornam altamente perigosas, pois mesmo sendo por vezes religiosas, morais, perpetuam a dilapidação a que é jogada a grande população, tanto quanto o que chamamos de natureza. Viva o progresso? Viva a cana e a monocultura ? A pecuária extensiva? O Petróleo? Viva a sociedade industrial crescente? Viva cada vez mais automóveis e a Economia dinossáurica? E qual o destino do ser humano a cada dia ? Doenças e epidemias, poluição, depressão, perda de sentido num mundo burguês que perdeu o controle sobre seus monstros ? É isso que queremos ?

A maneira de a natureza nos responder dá-se com avisos crescentes e arrepiantes: desordens climáticas potencializando efeitos de chuvas, secas, furacões, inversões térmicas inesperadas. Doenças novas ou doenças antigas que retornam. Vírus que se fortalecem com antibióticos e se potencializam. “Vaca louca”, gripe do frango, plantações que florescem antes da hora, aumento de “pragas” tanto animais quanto vegetais; doenças que campeiam o mundo pobre, mas também o rico. Lutar contra esse estado de coisas não quer dizer simplesmente voltar a um mundo romântico, ao passado e a algum paraíso que não existe mais, negando toda a tecnologia. E não é também ser apenas “do contra”, esquedista etc. Mas é, antes de tudo, uma síntese, para a qual muito temos a nos preparar – sustentabilidade – exigindo cada vez mais mudanças, desacomodamento, criatividade, tecnologias brandas, agricultura ecológica, familiar, distribuição de terras e política agrícola, cumprimento da legislação ambiental, economia solidária e ecológica, bioconstruções, fiscalizações de todo tipo, reestruturação de cidades sustentáveis e muito mais. A luta ecológica é muito mais do que romântica e verdista ou de um partido apenas, é a construção de um outro mundo possível, do que depende radicalmente a vida presente e principalmente futura.

Refletir em cima do Aquecimento global é compreender porquês, buscar mudar fatos como: de cada 4 pessoas, uma terá câncer (enquanto que na década de 50, era uma em cada 40 – ao mesmo tempo, passamos de 45 aditivos químicos na alimentação para mais de 2000 hoje !!!). È compreender que o uso de energia tem um custo muito maior do que o que pagamos; é internalizar externalidades, como no caso da carne. O consumo de carne é hoje um dos maiores vilões socioecológicos: destruição da Amazônia, da Mata Atlântica (onde vivemos), do solo, poluição intensa de rios, aumento de fome no mundo – pois a carne não é para os pobres, e toma o lugar dos grãos etc. Refletir em cima do Alerta Global é despertar para o Zeitgeist, para o aqui e agora.

Abrir os olhos ao aquecimento global, é promover a cidadania planetária, a esperança na humanidade, a vida das crianças, o respeito à vida não-humana, e a humildade – ou seja, o humus, respeito à terra, de onde todos viemos e para onde retornamos.

Neste sentido, finalizo com uma história sobre o surgimento do ser humano e o Cuidado. Diz a lenda narrada por Virgílio: “Um dia, quando Cuidado pensativamente atravessava um rio, ela resolveu apanhar um pouco de barro e começar a moldar um ser, que ao final apresentou forma humana. Enquanto olhava para sua obra e avaliava o que tinha feito, Júpiter (céus) se aproximou. Cuidado pediu então a ele, para dar o espírito da vida para aquele ser, no que Júpiter prontamente a atendeu. Cuidado, satisfeita, quis dar um nome àquele ser, mas Júpiter, orgulhoso, disse que o seu nome é que deveria ser dado a ele. Enquanto Cuidado e Júpiter discutiam, Terra surge e lembra que ela é quem deveria dar um nome àquele ser, já que ele tinha sido feito da matéria de seu próprio corpo – o barro. Finalmente, para resolver a questão, os três disputantes aceitaram Saturno como juiz. Saturno decidiu, em seu senso de justiça, que Júpiter, quem deu o espírito ao ser, receberia de volta sua alma depois da morte; Terra, como havia dado a própria substância para o corpo dele, o receberia de volta quando morresse. Mas, disse Saturno ainda, ‘já que Cuidado antecedeu a Júpiter e à Terra e lhe deu a forma humana, que ela lhe dê assistência: que o acompanhe, conserve sua vida e lhe dê o apoio enquanto ele viver. Quanto ao nome, ele será chamado Homo (o nome em latim para Homem), já que ele foi feito do humus da terra’”.

Marcelo Pelizzoli é professor adjunto da Universidade Federal de Pernambuco nas áreas de Filosofia, Bioética e Gestão e Política Ambiental e é autor dos livros “Correntes da ética ambiental” e “A emergência do paradigma ecológico”, entre outros.

setembro 4, 2008 at 1:57 am Deixe um comentário


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